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O MUNDO NUNCA FOI TÃO INCRÍVEL E NINGUÉM ESTÁ FELIZ

Você sabe que ficou velha quando começa olhar para o comportamento dos mais jovens e pensar: na minha época era diferente.

A minha geração, hoje com 30 e poucos anos, é uma geração privilegiada na minha opinião. Nós não só acompanhamos, mas vivemos grande parte dos avanços tecnológicos das últimas décadas e evoluímos com e graças a eles.

Quando eu lembro que já estava na faculdade e ainda não existiam redes sociais é difícil de acreditar. Chega a ser cômico pensar que eu estudei comunicação social antes dos smartphones, tablets, laptops, do Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, WhatsApp… MEL DELS!

Eu tinha de esperar para revelar fotos, tinha de atender ao telefone para saber quem estava falando, tinha de esperar tocar no rádio a minha música preferida e gravar em uma fita K7 se quisesse ouvir depois.

Se quisesse chegar a algum lugar, tinha de pedir informação na rua e ligar no 156 (telefone da prefeitura de São Paulo) para saber qual ônibus tomar.

Hoje, não dá mais para imaginar o mundo sem as facilidades que tornaram a nossa vida extremamente fácil e conveniente com apenas um clique.

Você já parou para pensar no quão sortudos nós somos por termos nascido nessa época?

Que nós vivemos em um mundo incrível, cheio de oportunidades que nunca existiram antes? Em uma era em que com acesso à internet é possível expandir o nosso conhecimento de graça, estudar em universidades fora do Brasil ou conversar com pessoas do mundo inteiro sem sair de casa? Ou que é possível viajar e conhecer novas culturas como nunca antes na história e nós ainda podemos tirar proveito disso no auge da nossa juventude?

Tudo evolui tão rápido e parece tão normal que tenho a sensação de que não damos valor para o quanto tudo isso é maravilhoso!

Também sinto que cada vez mais estamos deixando de agradecer e de olhar para o lado bom das coisas, principalmente quando elas não nos beneficiam diretamente ou naquele exato momento.

O poder da gratidão.
A palavra gratidão está na moda. Mas, o que é se sentir grato de verdade?

Tweet: Gratidão é celebrar o que há em abundância nas nossas vidas em vez de focar no que nos falta. @feneute

É saborear verdadeiramente tudo de bom que nos acontece reconhecendo o valor das coisas no momento certo. Quando você é grato, você se preocupa menos com o que vem depois e aproveita mais o agora.

Por muito tempo eu confundi gratidão com entusiasmo e otimismo. Mesmo sendo muito empolgada e otimista com a vida, pelo fato de ser perfeccionista demais, eu sempre achava que tudo poderia ser melhor, seja lá o que for. Isso fez com que, muitas vezes, eu não celebrasse as coisas que – na minha visão – não estavam perfeitas naquele momento.

Depois de começar a pesquisa e, principalmente, o curso de Ciência da Felicidade, eu percebi que embora eu estivesse sempre empolgada com as coisas, eu não era uma pessoa tão grata quanto eu pensava ser e, essa minha viagem pelo mundo foi o que mais me fez ter certeza disso.

Por mais incrível que fosse a minha visita a um país, eu sempre ia embora com a sensação de que não tinha aproveitado tudo. Ficava pensando mais nas coisas que eu não tinha feito, do que nas experiências que eu tinha vivido. Só que hoje, quando eu vejo fotos ou recordo a viagem, percebo quantas coisas legais aconteceram e talvez eu não tenha aproveitado tanto quanto deveria porque estava pensando no que eu não podia “perder”.

É claro que eu ficava animada, feliz e maravilhada com os lugares, mas o FOMO, a ansiedade pelo que eu estava deixando de fazer era tão grande que gerava uma agonia completamente desnecessária.

A gratidão explica porque algumas pessoas que tem tudo para terem a vida mais feliz do mundo são infelizes e outras que passam por sérias dificuldades são felizes.

Quando não somos gratos, não importa o quão boa seja a nossa vida, vamos sempre focar no que está faltando e é impossível ser genuinamente feliz dessa forma, já que a ansiedade causada pela necessidade de perseguir constantemente o que não temos nos afasta cada vez mais da felicidade.

“Não é a felicidade que nos faz gratos, 
é a gratidão que nos faz feliz.”
Monge David Steindl-Rast

Eu demorei para perceber que me faltava parar, contemplar e agradecer por aqueles momentos, mesmo que eles não fossem “perfeitos” e que só assim, tiraria o melhor de cada um deles enquanto eles estavam acontecendo.

Só que isso não é tão fácil quanto parece. Gratidão é muito mais do que uma hashtag ou do que simples “obrigada”.

Para ser grato é preciso aprender a reconhecer o lado bom da vida, refletir sobre o porquê e também sobre o que de positivo os acontecimentos do passado trouxeram para os dias de hoje, mesmo que não parecessem ou fossem bons na época.

A gratidão é a arte de parar e olhar para si mesmo e para cada novo dia como uma grande oportunidade, pois não sabemos quando será o último. Aliás, a vida nos foi dada de graça e acordar todos os dias já é o maior motivo para agradecer!
Por Fê Neute
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LOJAS SÃO ALÍVIO A CURTO PRAZO - Zigmunt Bauman

O estudioso polonês fala sobre 
tédio, frustração e insatisfação

É difícil falar sobre características da contemporaneidade, das transformações culturais e do universo do consumo permeado por projeções e distorções sem citar o nome do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia. Com quase 60 livros publicados, 32 deles no Brasil, o pensador se tornou uma referência em dissertações, teses e reflexões nas variadas áreas das ciências humanas: há mais de uma década, a ideia de “liquidez” das relações, apresentada por ele, incorporou-se à linguagem de psicólogos, psicanalistas, educadores, filósofos e antropólogos.
Em sua obra mais recente, A cultura no mundo líquido moderno (Zahar), com lançamento previsto para este mês, o pensador – que completa 88 anos dia 19 de novembro – retoma o tema das relações voláteis, detendo-se em perspectivas históricas da cultura. 

Na entrevista a seguir, Bauman fala a respeito de frustrações, tédio e do que chama de “substitutos de satisfação”: “Viagens oferecem fuga e descanso momentâneo; no entanto, por mais que nos aventuremos pelo mundo das compras ou façamos viagens exóticas, aquilo que procuramos continuará ausente”. Confira:


Mente e Cérebro: Hoje em dia, com tantos recursos tecnológicos, podemos fazer mais coisas em menos tempo, mas o mundo enfrenta uma epidemia sem precedentes de estresse e depressão. Parece que certas conquistas tecnológicas não nos deixaram necessariamente mais felizes.
Zigmunt Bauman: É verdade que podemos fazer mais em menos tempo. O problema é quão efetivas são nossas ações... Estresse e depressão decorrem da experiência generalizada de infelicidade e desesperança, o que nos relembra da comprovada (ou pelo menos suspeita) ineficácia de nossas ações. A maioria de nós se sente ignorante ou impotente a respeito do que o futuro reserva e, mesmo se soubéssemos que uma catástrofe se aproxima, poderíamos fazer muito pouco ou nada para evitar sua chegada. A inadequação de recursos diante dos impressionantes desafios e das grandiosas tarefas que enfrentamos é o que mais nos assombra e atormenta. Faltam-nos meios de ações conjuntas capazes de conter perigos coletivos. Como disse Ulrich Beck (sociólogo e psicólogo alemão, autor do conceito de “sociedade do risco”), atualmente temos buscado soluções individuais para problemas produzidos coletivamente – uma demanda superior às habilidades e aos recursos que a maioria de nós possui.


P: Em seus últimos livros o senhor tem feito reflexões sobre juventude e educação. De que maneira pais, professores e terapeutas podem ajudar as novas gerações a se afastar da banalidade do consumismo, das soluções individuais e buscar formas mais autênticas e criativas de lidar com conflitos?
ZB: Afastar-se da percepção de mundo consumista e desse tipo de atitude individualista contra o mundo e as pessoas (uma postura que, aliás, somos incitados, seduzidos ou forçados a assumir) não é uma questão a ponderar, mas uma obrigação determinada pelos limites de sustentabilidade desse modelo da vida que pressupõe a infinidade de crescimento econômico (em outras palavras, a redução cada vez mais dos recursos do planeta).
Segundo esse modelo a felicidade está obrigatoriamente vinculada ao acesso a lojas e ao consumo exacerbado. Mais cedo ou mais tarde (na verdade, muito antes do que imaginamos) esse “afastamento” da percepção consumista terá de acontecer... No entanto, as dores e os dramas do jovem atual estão relacionados ao fato de ser a primeira geração pós-guerra que precisa enfrentar esse ponto em branco. Ou seja, tem de se preocupar em defender aquilo que foi deixado pelos pais em vez de usar esses recursos como ponto de partida para mais conquistas.
E precisam fazer isso no momento em que as habilidades exigidas para pensar em alternativas para lidar com os desafios da vida, buscar a felicidade e conferir sentido às vivências foram esquecidas ou estão enferrujadas...


P: Apesar da crescente quantidade de estímulos externos (como TV e internet), as pessoas estão cada vez mais entediadas. Parece que estamos perdendo a capacidade de encontrar estímulos internos. Por quê? 
ZB: Ao longo de várias décadas, e particularmente nos últimos 30 anos da orgia consumista, temos sido treinados e forçados a buscar o sentido da vida no entretenimento e prazer. Fomos condicionados a ser intolerantes a todo desconforto e inconveniên-cia em qualquer área da vida ou tarefa que exija determinação, força de vontade, esforço árduo e prontidão para a privação pessoal. Aceitamos informações somente do tipo infotainment (expressão que designa mensagens midiáticas que integram elementos de caráter jornalístico e de entretenimento) e estamos dispostos a aprender apenas por edutainment (“education” + “entertainment”: metodologia aplicada a treinamentos que recorre à pedagogia e ao entretenimento por meio do uso intensivo de jogos e de atividades lúdicas).

P: É comum buscarmos fugas que deixam a impressão de que falta tempo para viver e desfrutar de tudo o que poderíamos. E o mais provável é que cada vez tenhamos mais opções. Qual a consequência disso?
ZB: Embora seja tentador poder “escolher” entre essa aparente profusão de opções, o problema é que a maioria delas leva a lugares distantes da raiz dos nossos conflitos e aflições, impedindo que os enfrentemos. Lojas vendem alívio de curto prazo, substitutos das satisfações que buscamos e precisamos, como viagens que oferecem fuga e descanso momentâneo…

No entanto, por mais que nos aventuremos pelo mundo das compras ou façamos viagens exóticas, aquilo que procuramos continuará ausente.
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O ESTADO CRIA A ILUSÃO DE QUE, SE VOCÊ É POBRE, A CULPA É SUA’ – Ken Loach

O filme Eu, Daniel Blake, é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.

Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o El País em seu escritório no Soho londrino.

Como chegamos à situação que seu filme descreve?
É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.

Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.

A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.

As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.

Todo o cinema é político?
O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.

Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza… Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.
Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.

O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.

Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.

Como gostaria de ser lembrado?
Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.
Fonte:  El País – Brasil

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