google.com, pub-7436220793694599, DIRECT, f08c47fec0942fa0 Cult Mente: Christian Ingo Lenz Dunker
Mostrando postagens com marcador Christian Ingo Lenz Dunker. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Christian Ingo Lenz Dunker. Mostrar todas as postagens

DE QUEM É A VIDA, AFINAL?

Gonçalo Viana

Ser “proprietário” da própria existência presume a possibilidade de escolher o que contar sobre si e também a aceitação de que os outros tenham esse mesmo direito.

A discussão sobre os limites e direitos envolvendo a publicação de biografias opõe argumentos razoáveis das duas partes. Os biografados defendem uma espécie de direito autoral primário sobre sua própria vida, que se traduz tanto pela ingerência e aprovação do processo de redação da biografia, quanto pelo recebimento de valores relativos a seu uso e comercialização. Os escritores postulam que seu trabalho deve se realizar segundo a cláusula maior do uso livre da palavra, que sua tarefa tem custos e que esta não pode depender de manipulações comerciais que ao final sempre podem resultar em veto e favorecimento da “versão oficial” da pessoa a respeito de quem se escreve.

A questão parece variar substancialmente quando se trata de um artista ou um político, que incitam regimes distintos de relação entre vida e “obra”. O quadro muda rapidamente de figura quando se trata do próprio interessado ou de seus herdeiros. E altera-se outra vez quando pensamos na vida íntima de pessoas comuns, expostas em sua privacidade, ou quando consideramos a existência de representantes legais, como no caso de uma criança. Imagine você o caso de um criminoso, que vai amealhar riqueza contando seu crime, ou empreitando que alguém o faça.

Este impasse é formado pelo exagero dos biografados e pela ignorância dos escritores, de uma verdade tácita com a qual ambos operam, sem se dar conta: cada um é dono de sua própria vida... enquanto ela dure; mas cada vida é feita de outras. Ser proprietário ou usuário de uma vida pode implicar também que a vida dos outros faz parte da sua, e que este entremeado de existências pertence a todos nós.

Com essas considerações em mente fui visitar o museu a céu aberto de Inhotim, na cercanias de Belo Horizonte. E lá estava a incrível instalação de Cildo Meireles, com seus quase 100 metros quadrados, composta por cercas, balaustradas, cortinas, barreiras e demais obstáculos que temos de atravessar, pisando sobre vidro quebradiço, para chegar ao núcleo gigante composto por uma massa plástica, vazia e artificial. A cada passo lembrava-me de T. S. Eliot e sua terra devastada. 

A cultura feita de escombros e ruínas, que nos leva ao centro de uma vida sem centro, à essência de uma vida sem essência. E concluía que se a vida fosse uma obra, deveria ser coletiva. E que se minha vida é composta dos outros que dela fazem parte e nela pisam, os autores das biografias têm razão em exercer sua arte ou sua ciência sobre vidas alheias com a liberdade que lhes é própria, descrevendo com cuidado os labirintos de uma experiência da qual eles não serão exatamente os donos, pois outras biografias virão.

Foi então que encontrei outra instalação, talvez mais majestosa ainda, posto que egressa do Louvre. Tunga dispunha um esqueleto gigante desprovido de crânio, em uma rede que atravessa a sala, assim como o rio Averno, pelo qual as almas eram transpostas pelo barqueiro Aqueronte, em troca de duas moedas. De um lado agrupavam-se os crânios, lembrança de nosso fim comum, de nossa pretensão de superar a morte, essa mestra absoluta. 

De outro, as cabeças enredadas dos deuses gregos e latinos, absorvidas antropofagicamente de sua passagem pelo museu francês. E concluía então que os biografados têm razão. É preciso pagar para morrer como pessoa, para tornar-se um personagem da própria vida, que teria então deixado uma obra, que justificaria a biografia. Mas não nessa moeda, já que a arte não é indiferente à matéria que ela arruína.

Christian Ingo LenzDunker

_____________________________________________________________________________________________________________________________


O Leblon pré-novelas do Manoel Carlos. Contos e crônicas.
 O cotidiano do bairro.
 Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense
e outros lugares tradicionais do Leblon
são os palcos dessas histórias.

A Casa Encantada 
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
https://amzn.to/2oP20S4
_____________________________________________________________
________________________________________

A FELICIDADE A QUALQUER PREÇO?


Cultivamos o mito de que se nos amamos e permanecemos juntos tudo ficará bem. Mas em civilizações como a nossa, obcecadas com a satisfação, prevalecem também a competição e a inveja.

Butão e Costa Rica disputam atualmente o título mundial de felicidade. Nos anos 30, o troféu coube às Ilhas Salomão, onde os antropólogos mostraram que havia liberdade com os costumes sexuais e compreensão para com a educação das crianças. Na Idade Média os paraísos medievais eram feitos de comida abundante e segurança, assim como as utopias modernas giraram em torno da liberdade e da igualdade. As variações de conteúdo sugerem uma constante: a felicidade é composta do que nos falta, mais exatamente, da relação com o que nos falta. Se entre nós e o que nos falta está o trabalho, temos uma relação com a felicidade. Se entre nós e o que nos falta está o amor, eis que a felicidade muda de figura. Se nos falta dinheiro, poder ou fama, ali estará a substância da felicidade. 

A felicidade depende da teoria da transformação que carregamos conosco. Se entre nós e o que nos falta existe apenas e tão somente uma imagem, a transformação desta imagem será o processo mesmo a que chamaremos felicidade.  Se entre nós e o que nos falta existe um oceano (que nos levaria às Ilhas Salomão), então nossa felicidade tem estrutura de viagem. Se entre nós e a felicidade está a presença incômoda de pessoas indesejáveis e seus costumes perturbadores, então nossa felicidade seguirá a gramática da guerra ou da segregação.

O terceiro critério de produção da felicidade diz respeito ao outro. Por exemplo, nos faltam asas, mas em geral não nos lamentamos sobre isso. Afinal, ninguém tem asas. Nossa felicidade depende de como supomos a felicidade de nosso vizinho. Se ele aparecesse com asas biônicas, imediatamente nos tornaríamos seres infelizes, afetados por esta privação. Civilizações obcecadas com felicidade, como a nossa, são também culturas de inveja e da competição.

É porque nossa felicidade depende de nossa teoria transindividual da transformação em relação ao que nos falta que a tarefa de educar nossas crianças tornou-se um desafio contemporâneo. Queremos tanto fazê-las felizes porque isso realiza nossa felicidade, satisfação perdida. Aqui a armadilha tem sido fatal. Imaginamos que o encontro de contrariedades reais traz infelicidades, por isso tentamos poupar nossos alunos de experimentarem sua própria falta. Supomos, depois, que nossa teoria da transformação será igual à deles (afinal, vivemos mais, sabemos como é o mundo), por isso não trabalhamos para que eles construam responsabilidade ou implicação com a felicidade que lhes concerne inventar.

 Além disso, sancionamos a ilusão da felicidade indiferente, baseada no conforto e na satisfação de si, custeada pelo mito de que se nós nos amamos e ficamos juntos e protegidos tudo vai terminar bem. Infelizmente, usado desta maneira o amor mata ou imbeciliza.

Praticada dessa maneira, produzimos com eles uma felicidade feita de negação de diferenças reais (que, portanto, não serão tratadas), de recusa de falsidade nas experiências de reconhecimento (que, portanto, serão odiadas) e de imperativos de sucesso que correspondem à realização, empobrecida, de nossa própria felicidade, não da deles.

 É assim que estamos prometendo uma felicidade venenosa e ainda queremos fazer das escolas uma extensão deste projeto mórbido. Precisamos de uma felicidade mais cara – esta está dando errado.

Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
____________________________________________________________________________________________________________________
O Leblon pré-novelas do Manoel Carlos.
Contos e crônicas.
 O cotidiano do bairro.
 Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense
e outros lugares tradicionais do Leblon
são os palcos dessas histórias.

A Casa Encantada 
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
https://amzn.to/2oP20S4
_____________________________________________________________
________________________________________

A CASA ENCANTADA - Contos do Leblon - - - - Clique abaixo para comprar na AMAZON

A CASA ENCANTADA - Contos do Leblon - - - - Clique abaixo para comprar na AMAZON
"As primeiras festinhas foram na AABB, Monte Líbano e Caiçaras, na Lagoa. As inesquecíveis foram no Clube Leblon e no Clube Campestre. Na saída bom era comer na Pizzaria Guanabara que tinha uma pizza calabreza deliciosa e vendia pedaços no balcão."