OS LACERDINHAS - Edmir Silveira

Nunca mais vi um Lacerdinha. Nem ouvi falar. Pensando bem, faz muitos anos, talvez décadas, que não tenho notícia. O Lacerdinha era um isento menor do que um mosquito aedes da atualidade. Mas o Lacerdinha não passava nenhuma doença.

Não era um mosquito. Era um inseto pretinho que infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano, acho que era primavera/verão. Minhas lembranças deles estão ligadas à época em que morava na Rua José Linhares.

No final da tarde eram cigarras cantando e Lacerdinhas caindo das árvores. Ás vezes, nos olhos. Ardia e coçava muito!! Deixava os olhos inchados e mãe preocupada.

Eles eram atraídos por roupa clara, principalmente amarela. Ás vezes atingia os olhos e provocavam muita irritação e ardência intensa. Esses minúsculos (mediam poucos milímetros) insetos eram chamados de Lacerdinhas, em referência a um antigo político carioca Carlos Lacerda, no tempo do estado da Guanabara.

Descobrimos que eles ficavam em folhas ainda verdes enroladas nas árvores. A gente as desenrolava e víamos um monte de Lacerdinhas. Um inseto preto pequenininho e cheio de pernas.

Para mim, os Lacerdinhas despertam uma lembrança muito marcante. Uma história que me provoca vergonha até hoje. Eu tinha uns 5/6 anos e era acostumado a brincar na rua. Havia muitas crianças tanto no meu prédio quanto nos vizinhos. Naquela época a maioria das casas tinha uma empregada, que morava na favela Praia do Pinto. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo e meu irmão. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo.

Bilico era muito gente boa, mais novo que eu um ano e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era muito negro com os dentes muito grandes e brancos. Quando Bilico passava o dia lá em casa, almoçava, tomava banho e lanchava junto conosco.

Nesse dia, Bilico chegou tomou café conosco e descemos pra rua pra brincar. Era época de Lacerdinhas. Dentre os garotos da rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, dois a três anos a menos. Nessa idade, isso faz uma grande diferença.  Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele.

Nessa tarde, a gente estava catando Lacerdinhas nas árvores. A gente abria as folhas e ficávamos observando os Lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, o Arlindo pega uns Lacerdinhas no dedo e empurra no olho do Bilico, que observava bem de pertinho. Bilico começa a coçar e a chorar com a ardência. Todos os meninos começaram a rir. Menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio. 

Lembro que foi um sentimento muito estranho e desconfortável que eu nunca havia sentido antes (anos mais tarde eu saberia que o nome era constrangimento), que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha de alguma coisa que nunca soube o que era.

Bilico não subiu para nossa casa, ficou num canto da portaria chorando baixinho. Falou que se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado sua mãe iria brigar com ele. Não queria que ele arrumasse confusão com os "filhos das madames".
Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos. A primeira coisa que a D. Ernestina viu foi o olho do filho inchado. Não falou nada. Chamou o Bilico para a cozinha e de lá só o vimos quando eles foram embora. Lembro bem da cara de choro dele se despedindo da gente.

Bilico nunca mais veio passar o dia conosco.

Não sei que fim levaram os Lacerdinhas. Faz décadas que não ouço sequer falar.  Entraram em extinção, foram expulsos pela poluição, as espécies de árvores eram outras?

Nunca mais vi um Lacerdinha. Nunca mais vi o Bilico. Eles me lembram a minha primeira infância. É a cara da Rua José Linhares.
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Um comentário:

  1. Eu também me lembro dos lacerdinhas. Sou santista e morei em Santos até os 23 anos. Lá havia muitos desses insetos. Lembro-me também do Carlos Lacerda. Decerto o nome do inseto foi escolhido porque o Lacerda era muito inflamado e "ardido". Meus pais eram fãs dele! rsrsrs

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NOSSO CÉREBRO TEM UM BUG - Daniel Kahneman

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Quando nosso cérebro se depara com algo que evoca uma lembrança do passado, ele tende a acreditar que essa coisa está correta.