O ANJO DO ALTO LEBLON - Edmir Silveira

Saí da portaria do pequeno e charmoso prédio da Rua Alberto Rangel e, antes de dobrar à direita na Sambaíba, parei para olhar a lua cheia. Um dia/noite de trabalho que, com certeza, ficaria marcado. Só não sabia que o motivo não seria eu ter acabado de fechar aquele excelente contrato.

Olhei o celular, 02h30minh da manhã, terça-feira, a semana toda já está ganha. Uma sensação de leveza que o silêncio da madrugada no Alto Leblon realça. Meia-volta, e me pego já caminhando na direção do final da Rua Alberto Rangel, sem saída e deserta. A portaria do Clube Campestre. Eu estava feliz, por agora e pelo que já tinha vivido nos embalos dos sábados à noite nas festinhas do Campestre. Felicidade lembra felicidade.

Desci novamente a rua e virei à direita na Sambaíba. Prestando atenção em cada passo, tentando reviver a sensação que tinha quando descia aquela ladeira na adolescência mágica que tivera. Virei novamente à direita e entrei na rua Prof. Brandão Filho, onde meu carro estava estacionado, em frente à academia.

Lembrei da pizza do Guanabara. Quando comecei a ir às festinhas do Campestre, na saída sempre passávamos na Pizzaria Guanabara que era só um bar, muito longe de ser o que se tornaria mais tarde. Era só um ponto de Táxi, por isso ficava aberto até a madrugada. O único do Leblon tipo Dia/Noite. Tinha, inclusive, aqueles telefones exclusivos de ponto de Táxi daquela época, que ficava numa caixa preta de metal, que só eles utilizam para receber pedidos de corridas no final da década de 70.

Percebi que estava nostálgico. Mas, uma nostalgia que não tinha tristeza alguma em sua composição. Estava feliz com as sensações que aquelas lembranças estavam trazendo porque, também, estava feliz com tudo que aquilo resultara, ou seja, no agora. As crianças sentem vontade de correr quando estão felizes.

A ladeira facilita o embalo e a alegria também. Me sinto um cara feliz. Olho para o meu carro parado a alguns metros, e o pensamento na pizza faz meu estômago roncar.

Lembrei de um amigo/irmão que uma doença levara a pouco mais de um ano. Era um dos que comiam pizza comigo na Guanabara. Nesse instante, ouço perfeitamente sua voz me chamando, como se estivesse logo atrás de mim. A audição foi tão real que parei, antes que tivesse tempo de olhar para trás, senti uma mão puxar meu casado com força e me jogar para dentro de uma portaria ao lado. Ao mesmo tempo, um barulho alto de batida e guinchos de ferros sendo torcidos aumentou mais o terror daqueles segundos. 
Tudo no mesmo milésimo. Sem nexo.

Quando comecei a retomar a consciência, percebi que havia sido jogado naquela reentrância dos prédios e, só por isso, não havia sido atingido pelo poste de concreto que o caminhão, e o carro que ele arrastara, derrubara. O poste caiu no lugar onde eu estaria se não tivesse sido puxado. O carro arrastado era o meu. Não havia mais ninguém naquela rua deserta. Eu estava vivo. O motorista do caminhão também.

Naquela madrugada um Anjo tocou em mim.
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NOSSO CÉREBRO TEM UM BUG - Daniel Kahneman

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Quando nosso cérebro se depara com algo que evoca uma lembrança do passado, ele tende a acreditar que essa coisa está correta.