A DESPEDIDA - Edmir Silveira


Eu faria 17 naquele ano, e era feliz. O verão dourava a pele, como sempre acontecia nos verões, e a vida corria fácil.  Até que meu pai chegou, num fim de tarde, falando sem a menor cerimônia:
- Vamos morar em Brasília.
Ouvi e demorei a entender. Minha primeira reação foi de choque, depois tristeza. Pensei nos amigos, na meninas, nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília.
A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre, e parecia que eu sabia disso.

 Resolvi que não contaria a meus amigos, não por enquanto.
Não sei bem porque. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo por ter de deixá-los.
            O primeiro a saber me surpreendeu com sua reação. Ficou triste e demonstrou. Me senti emocionado e mais triste ainda. Não esperava essa reação, ele sempre era muito gaiato e engraçado, fazendo piada com tudo. Não desta vez. As coisas estavam mudando. 
Os amigos e amigas foram cúmplices em momentos de tristeza que aconteceriam dali pra frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Percebi que nunca havia me imaginado tão querido.
            No Natal, depois de passarmos meia-noite, cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa naquela noite.
Antes de voltar pra casa, caminhei, chorando, pela praia da minha cidade chamada Leblon.
O tempo começou a passar mais rápido. E nunca mais passaria devagar.
  
Dia da viagem. Pedi a todos  que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia . Há semanas eu me despedia, estava cansado. O vôo, marcado para o final da tarde. Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foram nos meus óculos escuros.
           
Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodearam a vida toda, até aquele momento. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer da D.Maria!
Parecem nomes óbvios de personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são pessoas absolutamente reais, e se chamam exatamente com esses nomes. E, são ainda muito mais peculiares do que qualquer personagem fictício que tenha conhecido. Uma das coisas que eu achava mais curiosa neles era o fato de encontrar com eles tarde da noite andando pelo Leblon e sempre o Seu Antonio na frente uns 3 passos, seguido pela D.Maria. Um costume curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.
O Seu Joaquim era um capítulo a parte. Completamente lesado. Era sócio do Seu Antônio. Ninguém sabia como. Ele era tão confuso, que alguns sacanas davam uma nota de 5 para pagar algo de 10 e ainda levavam troco. Demorei a entender que aquilo era pura inocência de alguém que deve ter sido criado numa pequena aldeia de Portugal e não tinha malícia alguma para lidar com malandros cariocas.

Tudo e todos haviam adquirido um significado especial e faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros, e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã.

Passara toda vida naquelas areias, sob os olhares dos gigantes de pedra que agora, pareciam sorrir para mim. Olhei, tentando reter cada detalhe na memória. Fixar as imagens, me agarrar a elas, como se fossem desaparecer para sempre.
Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira e me ensinou a me sentir amado naquele verão. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao lado, calados. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d´água. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas alinhados na beira do mar. Calados.
Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.
            Chegara a hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão. Meus pais e irmãos. Ao chegar, a primeira coisa que vi foram meus amigos na entrada , tinham ido em um carro e na kombi do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi. Como foi bom vê-los. Uma emoção muito profunda. Inesperada, comovente, emocionante.
Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais incríveis da minha vida.

 Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu estava indo embora.
            À vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma. À você,  Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração. Obrigado pelo amor de vocês.

            Uma semana depois eu estava de volta.


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Quando nosso cérebro se depara com algo que evoca uma lembrança do passado, ele tende a acreditar que essa coisa está correta.